Ceia: Uma celebração sensorial no coração de Lisboa

O Ceia transcende a definição de restaurante. É uma experiência sensorial, onde cada prato narra uma história e cada momento à mesa se transforma numa recordação inesquecível.

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Ceia: Uma celebração sensorial no coração de Lisboa - ©Armando Saldanha (Aldrabiscas)

No pitoresco Campo de Santa Clara, em Lisboa, onde a história se entrelaça com a modernidade, encontra-se um segredo bem guardado da cena gastronómica lisboeta: o Ceia. Mais do que um restaurante, é um convite a uma experiência sensorial única, onde a cozinha de autor se funde com um espírito de partilha e respeito pela terra.

Instalado no requintado Santa Clara 1728, um palacete do século XVIII transformado em guesthouse, o Ceia distingue-se pelo seu ambiente intimista. Aqui, um grupo de apenas 14 convidados partilha uma longa mesa, onde cada prato é apresentado como uma narrativa cuidadosamente construída.

À frente deste projeto está o chef Renato Bonfim, cuja abordagem inovadora e sustentável valoriza os ingredientes sazonais e biológicos da Herdade no Tempo, a quinta alentejana do grupo Silent Living. Cerca de 85% dos produtos utilizados na cozinha do Ceia provêm desta propriedade, reforçando o compromisso com uma gastronomia consciente e autêntica.

O menu degustação “Mudança” é uma ode ao equilíbrio entre tradição e inovação, com uma forte mensagem sobre sustentabilidade. Cada prato reflete um conceito, uma história.

A viagem começa nas profundezas do oceano, com “Oceano”, um prato vibrante onde o jalapeño, a lima, o rábano e as plantas marinhas evocam os sabores do mar numa noite de verão. Segue-se “Carbono”, um leite-creme salgado de algas e coentros, e “Terra”, um brioche de levedura de cerveja, caju e cogumelos chanterelle, que se desfaz na boca como um sonho efémero, trazendo notas terrosas intensas.

No quarto momento da experiência, surge “Invasor”, um prato intrigante com tirinhas de lula, ouriço-do-mar e koji, que desafia os sentidos. O momento seguinte, “You look but you don’t sea”, joga com as perceções, apresentando Veja (peixe muito comum nas águas dos Açores), tiras de abóbora e mexilhões, que combinam num equilíbrio perfeito entre doçura e salinidade.

A meio do jantar, uma pausa leva os convidados ao terraço do hotel para saborear “Ar”, uma delicada espuma de amêndoa fumada, acompanhada por um copo de vinho que refresca o palato e cria um interlúdio contemplativo.

De volta à sala de jantar, surpreendemo-nos com a magnifica decoração da mesa. O tema agora é a floresta, e o cheiro da madeira das árvores, do musgo e do cascalho, predomina no espaço. Este é o momento do ‘Bioma”, composto por cogumelo-ostra frito em massa mãe, cogumelo shiitake fumado em cedro e alho francês crocante, um prato repleto de profundidade e aromas terrosos. Depois, “Solo” presta homenagem à tradição com carne de veado em três versões: pica-pau minhoto, tártaro do lombo e feijoada de veado com enchidos da casa, uma verdadeira viagem ao passado e às memórias da cozinha das nossas avós, onde os aromas e sabores reconfortantes nos envolvem em nostalgia.

Nos momentos finais, chegam as sobremesas: “Ozono” e “Biodiversidade”, uma fusão de sabores e texturas inesperadas. A sanduíche de bolacha de miso surpreende com a sua apresentação inovadora, enquanto o prato de arroz cozinhado em amazake é uma verdadeira obra de arte culinária, equilibrando doçura e complexidade de forma magistral.

Toda a experiência é harmonizada com uma criteriosa seleção de vinhos portugueses, que percorrem diferentes terroirs do país. Do vulcânico Entre Pedras, dos Açores, ao sofisticado Lagar de Darei, do Dão, passando pelo aromático Baías e Enseadas, dos Vinhos do Tejo, e pelo elegante Pura, também do Dão, cada vinho realça e complementa os sabores do menu de forma sublime.

O Ceia é, acima de tudo, um lugar de encontro. Ao longo do jantar, estranhos tornam-se cúmplices, partilhando não apenas uma refeição, mas uma vivência. No final da noite, a equipa do chef junta-se à mesa para um último brinde, selando a experiência com o que realmente importa: a paixão pela gastronomia e pela comunhão à volta da mesa.

Para os verdadeiros apreciadores, o Ceia transcende a definição de restaurante. É uma experiência sensorial, onde cada prato narra uma história e cada momento à mesa se transforma numa recordação inesquecível.

aNOTÍCIA.pt