Alfama celebrou Amália com fado e poesia

No Fama d’Alfama, Joana Amendoeira sublinha que a partilha entre músicos e poetas faz com que o fado em Alfama renasça todas as noites

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Fado Alfama
Alfama celebrou Amália com fado e poesia - ©Armando Saldanha (Aldrabiscas)

O Fama d’Alfama assinalou no dia mundial do fado, com “Ode a Amália Rodrigues”, um espetáculo especial que reuniu algumas das vozes mais expressivas do fado contemporâneo — Cristina Branco, Joana Amendoeira e Teresinha Landeiro — numa celebração onde fados, poesia e gastronomia se cruzaram num ambiente intimista.

Acompanhadas por Bernardo Couto na guitarra portuguesa, João Filipe na viola de fado e Ricardo Dias ao piano, as fadistas deram corpo a um alinhamento que evocou diferentes fases da carreira de Amália, da sua herança literária às interpretações que redefiniram a canção portuguesa no século XX. A direção artística esteve a cargo de Joana Amendoeira e Tiago Torres da Silva, responsável também por momentos de poesia e pela cedência de peças pessoais da artista, apresentadas numa pequena exposição patente no espaço.

Para Joana Amendoeira, a iniciativa reflete a alma que pretende imprimir à casa que co-dirige. “Conseguimos reunir talentos generosos que fazem crescer esta casa todos os dias”, afirma a fadista, que vive o Fama d’Alfama “intensamente, diariamente, a par dos concertos e dos discos”. Sobre o espírito que caracteriza a casa, destaca a espontaneidade de encontros artísticos: “Muitas vezes, no final da noite, juntam-se músicos, fadistas e até poetas. Essa partilha faz com que o fado renasça em Alfama.”

Além das interpretações programadas, o evento contou ainda com um momento inesperado. Nos instantes finais, a noite ganhou um brilho extra. Camané subiu ao palco de forma espontânea e ofereceu um momento intenso, recebido com aplausos calorosos e uma emoção partilhada por todos os presentes.

A celebração fez-se também à mesa, com um jantar especialmente preparado para a ocasião. A carta apresentou uma leitura contemporânea dos clássicos portugueses, começando por entradas como espetadas de atum, sopa à antiga, amêijoas e cogumelos à Bulhão Pato e peixinhos da horta com molho sweet chili.

Para partilhar, destacou-se a tábua mista de queijos e enchidos, pensada para acompanhar conversas longas e copos demorados. Nos pratos principais, surgiram propostas como o polvo em tempura com puré de batata-doce e salada de agrião, o camarão-tigre na manteiga de ervas, os lagartos de porco preto com batata-doce frita, o rabo de boi estufado e os cogumelos recheados com mousse de queijo de cabra e salada trufada, opções que misturam conforto, técnica e identidade.

As sobremesas encerraram a noite com três clássicos: quindim com framboesa e menta, pudim Abade de Priscos e cheesecake de frutos vermelhos.

Durante o evento foi inaugurada uma galeria fotográfica permanente, dedicada aos rostos que dão vida ao Fama d’Alfama. Entre eles, Joana Amendoeira, Jonas, João Filipe, Maria da Nazaré, Mariana Lopes Correia, Nani Medeiros, Mário Pacheco, Beatriz Felício, João Nunes e Teresinha Landeiro. Um tributo visual à comunidade artística que ocupa, noite após noite, o palco da casa.

Joana Amendoeira sublinha que este ambiente de proximidade tem atraído cada vez mais portugueses: “Hoje em dia há mais público português nas casas de fado do que antes. Há pessoas que vêm com frequência, que regressam e criam ligação à casa.” Uma dinâmica que reforça a missão do Fama d’Alfama enquanto espaço onde tradição e criação contemporânea convivem.

A “Ode a Amália Rodrigues” marcou assim uma noite de homenagem emotiva e plural, reafirmando o legado da maior voz do fado e reforçando o papel do Fama d’Alfama como ponto de encontro entre artistas, público e gastronomia portuguesa.

aNOTÍCIA.pt