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Receitas de família saem das gavetas e revelam memórias na Universidade de Coimbra

Receitas de família chegam à Universidade de Coimbra para revelar memórias, tradições e património alimentar guardados entre gerações.

Receitas de família em caderno manuscrito numa imagem da iniciativa da Universidade de Coimbra
Cadernos de receitas guardam memórias e histórias transmitidas entre gerações - ®DR

Uma receita anotada à margem, uma folha marcada pelo tempo ou uma indicação escrita com a letra de quem já não está à mesa podem dizer tanto sobre uma família como muitas fotografias. É esse território íntimo que a Universidade de Coimbra quer trazer para o espaço público, reunindo receitas de família e as histórias que permaneceram guardadas com elas.

O Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH), da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, está a preparar a exposição “Cadernos de Receitas de Família”, que ficará patente na Sala do Catálogo da Biblioteca Geral entre 21 de outubro e 20 de novembro de 2026. A iniciativa procura cadernos manuscritos, antigos ou recentes, pertencentes a pessoas residentes em Portugal e associados a memórias familiares ou afetivas.

Receitas de família como testemunhos de uma época

O interesse não está na raridade do objeto nem na sua aparência. Um pequeno bloco usado durante décadas pode ter tanto valor documental como um caderno cuidadosamente organizado. Importa perceber quem escreveu, de onde vieram as receitas, como foram transmitidas e que lugar continuam a ocupar na vida de quem as guarda.

Vista dessa perspetiva, a recolha destes cadernos abre uma janela sobre hábitos alimentares, relações entre gerações, modos de cozinhar e formas de preservar conhecimento. Os cadernos podem revelar ingredientes recorrentes, adaptações feitas com o tempo, técnicas aprendidas em casa e até influências trazidas por deslocações, migrações ou encontros entre diferentes culturas.

É também por isso que a iniciativa não se limita a famílias portuguesas nem a cadernos escritos em português. Podem participar residentes em Portugal de qualquer nacionalidade, e os manuscritos podem estar redigidos em qualquer idioma. O critério central é a ligação entre o caderno, a história familiar e a memória construída em torno da alimentação.

Carmen Soares, investigadora e coordenadora científica do CECH, resume essa dimensão ao afirmar que “um caderno de receitas de família nunca guarda apenas receitas”. Nas suas palavras, estes objetos conservam “pessoas, relações, gestos, memórias e formas de viver” transmitidas entre gerações. A investigadora sublinha ainda que o património alimentar familiar não tem fronteiras e que o essencial está na história contada por cada exemplar.

Quando as receitas de família entram no património

Ao apresentar estes cadernos como “Grandes Obras da Literatura Culinária”, a exposição propõe uma leitura pouco habitual de objetos comuns. As receitas de família passam a ser observadas não apenas como instruções para preparar pratos, mas como fontes para compreender cultura alimentar, gastronomia, identidade, quotidiano e história social.

Essa abordagem aproxima a iniciativa de áreas como o património gastronómico, a história da alimentação e os estudos sobre memória. Uma correção feita à mão, uma receita copiada de outra pessoa ou uma página gasta pelo uso podem ajudar a reconstruir práticas culinárias e relações familiares que dificilmente chegariam aos arquivos através de documentos oficiais.

A Universidade de Coimbra pretende, assim, dar visibilidade a um património que permanece sobretudo dentro das casas. As receitas de família selecionadas integrarão temporariamente a exposição e os respetivos cadernos serão depois devolvidos aos proprietários.

A participação decorre até 5 de outubro de 2026 através do formulário disponibilizado na página da iniciativa. Entre os exemplares apresentados serão escolhidos os que irão integrar a mostra na Biblioteca Geral. O processo permitirá reunir testemunhos provenientes de diferentes geografias, percursos familiares e tradições culinárias presentes no país.

No centro de todo o projeto permanece uma ideia simples: aquilo que parece apenas um caderno de cozinha pode conter uma biografia coletiva. Ao reunir receitas de família, caligrafias, manchas, correções e lembranças, a exposição transforma documentos privados em pistas para compreender como se cozinharam, partilharam e transmitiram sabores ao longo do tempo. E mostra como, por detrás de uma receita, pode sobreviver uma parte inesperadamente viva da história de uma família.

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