
A nova exposição de Kruella parte de um pano antigo, marcado por uma história anterior à própria obra. Sobre o tecido, a artista criou uma nova peça e aproximou dois tempos que pareciam separados. O passado não foi apagado: tornou-se parte da pintura.
“Preciso Me Encontrar” reúne trabalhos realizados entre 2020 e a atualidade, num percurso atravessado pela memória, pela transformação e pela procura de identidade. Em vez de apresentar apenas uma sequência de obras, a mostra procura perceber o que mudou e aquilo que permaneceu no universo visual de Kruella d’Enfer.
Cores intensas, criaturas míticas, formas geométricas e elementos naturais reaparecem ao longo deste percurso. Umas vezes ocupam paredes de grandes dimensões; noutras, ficam contidos no espaço mais íntimo do papel ou da tela. As diferentes escalas encontram-se agora numa narrativa construída a partir da evolução artística de Ângela Ferreira.
O título assume a forma de uma inquietação. “Preciso Me Encontrar” não anuncia uma resposta nem sugere que a procura tenha terminado. Pelo contrário, deixa aberta a possibilidade de a identidade artística também se construir através das dúvidas, das mudanças e do reencontro com trabalhos anteriores.
Exposição de Kruella regressa aos últimos anos da artista
A seleção de obras escolhidas para a esta exposição de Kruella, concentra-se em obras criadas desde 2020. Trata-se, por isso, de uma retrospetiva recente, suficientemente próxima para conservar ligações ao presente, mas já capaz de revelar alterações na linguagem e no modo como Kruella d’Enfer organiza as suas composições.
Olhar para trás não significa, neste caso, recuperar uma versão imóvel do passado. Cada obra regressa num contexto diferente e estabelece novas relações com as peças que a rodeiam. Aquilo que nasceu isoladamente passa a integrar uma leitura comum.
A exposição de Kruella acompanha esse movimento sem impor uma interpretação única. Há símbolos que resistem, cores que regressam e figuras que parecem pertencer ao mesmo território imaginário. Também existem mudanças na forma de ocupar o espaço, simplificar as imagens e escolher os suportes.
A nova obra realizada sobre o pano antigo ganha especial importância neste percurso. O tecido não funciona como uma superfície neutra. As marcas que transporta participam na composição e introduzem uma memória que a artista não criou, mas que decidiu incorporar.
É a partir deste diálogo entre diferentes tempos que a exposição de Kruella constrói o seu fio narrativo. Kruella d’Enfer não apaga o que existia para começar de novo. Trabalha sobre os vestígios e permite que passado e presente convivam na mesma peça.
A pergunta sobre uma nova identidade ganha, assim, maior força. A resposta, porém, permanece em aberto, tal como acontece em grande parte do trabalho da artista, onde o real e o imaginário se encontram sem fronteiras rígidas.
Entre criaturas míticas, natureza e formas geométricas
Ângela Ferreira, nascida em 1988 e conhecida artisticamente como Kruella d’Enfer, construiu um universo facilmente reconhecível. As suas obras aproximam a natureza do fantástico e dão lugar a animais, plantas, figuras humanas e símbolos que parecem chegar de lendas ou narrativas antigas.
O folclore, o surrealismo, a espiritualidade, a banda desenhada, o cinema e as viagens cruzam-se nessa linguagem. As referências não surgem como citações isoladas, mas misturam-se até formarem paisagens que oscilam entre o familiar e o desconhecido.
Na exposição de Kruella, essas paisagens podem ser entendidas como territórios interiores. Não representam apenas lugares: guardam estados de espírito, recordações e perguntas que nem sempre encontram uma resposta imediata.
A natureza mantém-se como uma das influências mais constantes da artista. Folhas, flores, animais e formas orgânicas convivem com linhas geométricas e contrastes cromáticos fortes. Essa combinação permite-lhe construir imagens densas sem perder a clareza visual que marca os trabalhos mais recentes.
Uma viagem ao Japão, realizada em 2019, contribuiu para esse processo de depuração. O contacto com a arquitetura, o cinema e a cultura visual japonesa levou Kruella d’Enfer a simplificar algumas composições. Os elementos tornaram-se menos numerosos, mas a cor continuou a ocupar um lugar central.
Na exposição de Kruella, essa evolução torna-se visível no diálogo entre trabalhos produzidos em diferentes momentos. As obras partilham o mesmo universo, embora revelem mudanças no modo como a artista equilibra a cor, as formas e o espaço.
Da rua para a intimidade do estúdio
O percurso de Kruella d’Enfer desenvolve-se entre escalas muito diferentes. Desde 2010, a artista tem apresentado trabalhos em exposições e festivais, ao mesmo tempo que pinta murais em Portugal e noutras cidades europeias e asiáticas.
Na rua, as imagens adaptam-se às fachadas, à arquitetura e ao movimento de quem passa. No estúdio, o ritmo muda. O desenho aproxima-se, os materiais tornam-se mais visíveis e os pequenos detalhes ganham outro peso.
A exposição de Kruella aproxima estas duas dimensões sem as confundir. A energia visual dos murais permanece nas obras de menor formato, enquanto os trabalhos mais intimistas revelam o processo que antecede a passagem para superfícies maiores.
Os cadernos de esboços desempenham um papel importante nesse processo. É no papel que muitas ideias começam a ganhar forma antes de passarem para telas, paredes ou outros materiais. Ao longo dos últimos anos, a artista também alargou a prática à cerâmica, mantendo a vontade de experimentar técnicas e suportes.
Essa disponibilidade para mudar ajuda a compreender “Preciso Me Encontrar”. A identidade apresentada pela mostra não é estática. Forma-se através das experiências acumuladas e das escolhas que obrigam a abandonar caminhos conhecidos.
O passado como matéria para continuar
A exposição de Kruella não procura resumir toda a carreira da artista nem fechar uma etapa. O ponto de partida é mais pessoal: reunir fragmentos dos últimos anos e perceber como ainda comunicam entre si.
Algumas respostas podem estar nas cores que permaneceram. Outras surgem nas criaturas míticas, nas referências à natureza ou na forma como as composições se tornaram mais depuradas. Há também perguntas que continuam sem solução — e talvez seja essa ausência que mantém o percurso em movimento.
No centro da exposição de Kruella, o pano antigo volta a ligar todos estes elementos. Recebe uma nova imagem sem perder por completo os sinais do tempo. Entre o que já existia e aquilo que foi acrescentado, a obra transforma a memória numa matéria ativa.
“Preciso Me Encontrar” sugere que reconhecer o passado pode ser uma forma de continuar. Não para repetir o que já foi feito, mas para identificar os elementos que resistem à mudança e aqueles que ainda procuram uma nova direção.
Integrada no quarto capítulo de End of Story, com curadoria de Carolina Quintela, a exposição de Kruella inaugura a 17 de setembro, às 19h00, no hotel Inspira Liberdade, em Lisboa, onde ficará patente durante um mês.




















