
Na história do Guincho, há uma rainha que fazia piqueniques junto à praia, mesmo no inverno, e um navio encalhado que atraiu milhares de curiosos. Muito antes das pranchas de surf, esta costa já tinha motivos para fazer parar quem por ali passava. Alguns ficaram registados em fotografias; outros chegam agora às páginas de Guincho: Uma Revoada de Histórias.
Da autoria da historiadora Margarida de Magalhães Ramalho e editada pela Câmara Municipal de Cascais, a obra percorre as mudanças de um território associado ao vento, ao mar e às dunas. Pelo caminho, reúne episódios de diferentes épocas, das fortificações marítimas às primeiras estalagens, passando pela Segunda Guerra Mundial, pelo automobilismo e pela gastronomia.
O livro, divulgado pelo Restaurante Porto Santa Maria, acompanha a história do Guincho através dos lugares e das pessoas que participaram nessa transformação. Residentes, visitantes e figuras públicas entram num relato que ajuda a perceber como esta faixa costeira ganhou os usos e a notoriedade que hoje lhe são conhecidos.
História do Guincho antes dos dias de praia
Durante séculos, olhar para o oceano significava também vigiar a chegada de possíveis ameaças. As construções militares que ainda pontuam o litoral recordam uma época em que a defesa da costa condicionava a ocupação do território.
O Forte do Guincho, igualmente conhecido como Forte das Velas ou do Abano, foi construído em 1642. A sua função era impedir desembarques na praia e na enseada vizinha, integrando um sistema de vigilância com comunicação visual para outras fortificações. O areal que hoje recebe banhistas era, então, uma zona a proteger.
Com o passar do tempo, algumas estruturas perderam a função militar e deram lugar a outros espaços. A Bateria Alta foi demolida para a construção do Hotel do Guincho, em 1959. Já a Bateria da Galé foi substituída pelo restaurante A Barraca e, posteriormente, pela Estalagem do Muchaxo, em 1964.
Estas mudanças ajudam a ler a história do Guincho no próprio terreno. Onde antes se preparava a defesa do litoral, começaram a surgir motivos para permanecer, passar férias e fazer uma refeição com o Atlântico por perto.
História do Guincho com uma rainha à mesa
A presença da corte em Cascais trouxe novos hábitos à costa. Depois de D. Luís escolher a Cidadela como residência de verão, em 1870, os passeios da família real e da aristocracia estenderam-se às zonas envolventes.
Maria Pia gostava de fazer piqueniques nas praias do Guincho, incluindo durante o inverno. O episódio dá uma dimensão quotidiana à presença da rainha e aproxima aquele tempo de um costume que continuaria a fazer parte dos dias de muitas famílias.
Mas nem todas as memórias têm a tranquilidade de um almoço ao ar livre. Em 1957, o naufrágio do navio britânico Hildebrand, à vista do Cabo Raso, levou milhares de curiosos à costa durante semanas. O acidente tornou-se também um acontecimento observado a partir de terra.
Entre momentos de lazer e acontecimentos inesperados, a história do Guincho ganha escala humana. A obra cruza episódios de grande visibilidade com práticas quotidianas, permitindo acompanhar diferentes maneiras de viver e frequentar o mesmo território.
História do Guincho das estradas às ondas
As corridas de automóveis acrescentaram velocidade a esta relação com a paisagem. As estradas da costa passaram a acolher uma forma de lazer bem diferente dos passeios de carruagem, enquanto os banhos de mar, as estalagens e os hotéis contribuíam para a afirmação turística da zona.
O surf trouxe outra relação com o oceano. A ondulação e os ventos fortes tornaram a praia adequada à prática de desportos de ondas e de windsurf, com competições internacionais a reforçarem a sua projeção. As condições naturais passaram a atrair públicos com interesses próprios.
A história do Guincho acompanha, assim, mudanças nos tempos livres e nos modos de viajar. A praia tornou-se ponto de encontro de banhistas, desportistas e visitantes, enquanto a restauração e a hotelaria consolidavam a presença de quem chegava.
História do Guincho nas memórias do Porto Santa Maria
Entre os espaços retratados encontra-se o Porto Santa Maria. O livro revisita as origens do restaurante e a passagem de personalidades nacionais e internacionais, enquadrando o seu percurso na evolução gastronómica desta costa.
Foi Saul Saragga, gerente do restaurante, quem lançou a Margarida de Magalhães Ramalho o desafio de reunir estas memórias. A ligação de décadas ao território esteve na origem de uma investigação que alargou o olhar a acontecimentos, edifícios e pessoas de diferentes épocas.
As imagens também participam nesse registo. Fotografias de arquivo surgem ao lado de imagens recentes de Giorgio Bordino e Guilherme Cardoso, permitindo observar lugares que desapareceram ou mudaram de configuração.
Reunida em livro, a história do Guincho permite reconhecer essas alterações numa costa que continua a ser frequentada por novas gerações. Um forte, uma estalagem ou uma mesa junto ao mar passam a ter contexto: quem os construiu, quem ali esteve e o que aconteceu antes da fotografia que hoje se tira.




















