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“Uádi”: A Viola Campaniça reinventa-se no novo álbum que une fronteiras e emoções

"Uádi" reinventa a viola campaniça com sonoridades híbridas e eletrónicas. Um álbum que cruza tradição, fronteiras e o som da raia alentejana.

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“Uádi”: A Viola Campaniça reinventa-se no novo álbum que une fronteiras e emoções - ®DR

No coração da raia ibérica, um som antigo renasce com uma força inesperada. A viola campaniça, símbolo maior do Alentejo profundo, ganha uma nova pele em “Uádi”, o mais recente álbum do projeto RAIA, lançado a 26 de setembro. Neste disco, tradição e experimentação dançam lado a lado, num percurso onde a viola campaniça contemporânea se transforma numa ponte viva entre tempos, geografias e linguagens.

RAIA, projeto do músico e compositor António Bexiga, propõe com Uádi uma viagem sensorial e emocional que atravessa desertos sonoros, rios interiores e a memória cultural da fronteira luso-espanhola. Mas este não é um álbum de paisagens idílicas ou folclore domesticado. É uma obra crua, poética, inquieta — onde a viola campaniça contemporânea se deixa tocar por eletrónica, colaborações inesperadas e sonoridades híbridas, que revelam um novo olhar sobre o instrumento.

Uma Viagem Sonora pela Raia e Pelo Mundo

O título do álbum, Uádi, remete para a palavra árabe usada para designar rios secos ou temporários. E é exatamente essa imagem que permeia o disco: um rio subterrâneo, invisível, mas sempre presente. Em vez de um objeto de contemplação romântica, a natureza aqui é movimento, tensão, transformação. E nesse cenário, a viola campaniça contemporânea ergue-se como voz ativa de um planeta em mutação, evocando temas como as alterações climáticas, os ciclos de abundância e escassez, e a pertença a algo maior que escapa à nossa compreensão total.

Inspirado pelos “hiperobjetos” descritos pelo filósofo Timothy Morton — realidades vastas como o clima ou os oceanos — o álbum é simultaneamente local e global. Fala do Alentejo, mas também do mundo. É um convite à escuta profunda, ao cruzamento de culturas, à experiência de um som que não se limita ao passado, mas que projeta o futuro.

RAIA: A Tradição em Diálogo com o Presente

António Bexiga continua, com RAIA, a desafiar os limites da tradição, explorando as fronteiras acústicas, elétricas, analógicas e digitais da viola campaniça. Este projeto multifacetado cruza frequentemente a música com artes visuais e performativas, afirmando-se como uma plataforma criativa em constante mutação.

Depois dos singles “Saias de Cinza” e “Um Dia no Deserto”, o projeto prepara-se para lançar um novo tema: “O Golpe”, com participação de Fio Manta, prometendo mais um momento de fusão e descoberta.

Uádi não é apenas um disco. É uma declaração artística e emocional — um grito de pertença a um tempo em constante transformação, onde o som da viola campaniça se reescreve e se renova, sem nunca perder as raízes.

aNOTÍCIA.pt