Os dois corações que pulsam na Serra da Estrela

Ao falar de dois dos corações na Serra da Estrela relembramos as ‘sempre atuais’ palavras de Artur Aleixo “Sabes Estrela da beleza que há em ti?”

dois corações na Serra da Estrela
Os dois corações que pulsam na Serra da Estrela - ©Nuno Adriano

Os dois corações que pulsam na Serra da Estrela

O primeiro coração

Ainda sobre a sombra da manhã e exatamente antes de entrarmos numa outra dimensão que é o Covão da Ametade, relembramos um excerto de Artur Aleixo, “Sabes Estrela da beleza que há em ti?” O coração da Estrela é aquele local que nos deixa impávidos e eletrizados perante a terrível veracidade desta interrogação e que se encaixa como uma peça de Lego. Um local que é o espectro do que a Estrela significa como a mais imponente e simbólica montanha em Portugal Continental.

 

Somos pulsados para iniciar

Somos pulsados por “este coração” a iniciar a nossa jornada pedestre, deixando-nos levar pelo fluxo de emoções que esta montanha acarreta a cada passo, a cada olhar que prospeta o horizonte.

Chegando à crista onde o vale glaciário do Zêzere faz uma inflexão de 90º, relembramos, de sorriso eterno, os momentos passados na “Placa dos Fantasmas”, conhecida assim na gíria dos escaladores. Muitos de nós, adeptos da escalada desportiva em rocha, demos aqui os nossos primeiros passos. Temos todos nós um pouco de fantasmas, quando deambulamos por esta montanha como lobos, mas o nosso ‘ímpeto de caça’ é de a conhecer, mostrá-la e igualmente preservá-la. Este é o sentido de quem caminha e escala por ela.

 

Circulando pelas paisagens

Fluindo pelas artérias da Serra da Estrela, prosseguimos pelo vale da Candeirinha e como numa tela de cinema vemos os três estoicos Cântaros (Raso, Magro e Gordo), os trigémeos inseparáveis para a vida e que alimentam a paisagem serrana com as suas vertentes íngremes, fazendo de nós humanos, seres diminutos. É a mecânica da natureza a funcionar na perfeição.

Ao subirmos a crista, temos ao nosso lado direito o vale glaciário da Candeeira, com o seu vasto cervunal e igualmente um dos últimos refúgios da pastorícia tradicional e nómada da Serra da Estrela, durante o período estival. É um consolo caminhar no verão, sempre com o estéreo dos chocalhos a ecoar nas encostas, demonstrado a relação promíscua entre a montanha e uma das atividades mais ancestrais do homem moderno e que pouco evoluiu em conceito nestes milhares de anos.

 

O segundo coração

Chegamos ao nosso destino e deixamo-nos oxigenar pela montanha. Nós, humanos, teoricamente os seres mais racionais, não podemos negar o sentido de beleza desta lagoa, encaixada num perfeito circo glaciário de vertente e devidamente escoltada pelo imponente promontório granítico do Cântaro Gordo. Este, com o seu plastrão imaculado, reflete-se nestas águas límpidas de montanha e testemunha, perante nós, que ainda existem espaços naturais intocáveis no nosso país.

Aqui os nossos pensamentos menos positivos são filtrados, purificados e devolve-nos a força que necessitamos para enfrentar as nossas lides diárias num mundo cada vez mais acelerado, competitivo e volátil.

 

A dádiva da montanha

Com a nossa sede atestada de montanha e natureza, o percurso de regresso afigura-se no horizonte. Hora de regressar sabendo que esta montanha tem toda a paciência do mundo para nos receber. É essa a dádiva que ela nos dá. Com o seu pulsar sempre aqui para alimentar os nossos sonhos…

 

NOTA IMPORTANTE: Nestes percursos, aconselha-se vivamente a visita com acompanhamento de guia.

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Nota: fotografias de várias épocas do ano.

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