
E se um grupo de jovens surfistas da Costa da Caparica fosse desafiado a competir com os melhores do mundo do surf, do outro lado do planeta? E se, contra todas as probabilidades, levassem consigo não só pranchas e talento, mas também o peso simbólico de uma comunidade inteira? Foi esse o ponto de partida, e o ponto de chegada, de Australian Dream – A História da ASCC, o documentário de Tiago P. de Carvalho, cuja antestreia decorreu nos Cinemas NOS Almada Fórum.
Um feito que entrou para a história do surf europeu
A ASCC – Associação de Surf da Costa de Caparica tornou-se o primeiro clube europeu a ser convidado para o World Club Challenge, uma das mais prestigiadas competições internacionais de clubes de surf, realizada em Snapper Rocks, na Gold Coast australiana. Entre 48 equipas de elite, os portugueses conquistaram um histórico 5.º lugar e foram distinguidos com o prémio Best Team Spirit, reconhecimento da sua união, atitude e entrega coletiva.
“Esta aventura começou na Costa da Caparica com a vontade de levar o nosso clube além-fronteiras”, recorda Miguel Gomes, presidente da ASCC, conhecido carinhosamente como ‘Chibanga’. “Andei dois anos a tentar entrar neste campeonato. Foi um sonho de menino chegar à Austrália. Quando recebemos a confirmação, só tínhamos dois meses para preparar tudo.”
Um filme que pulsa com energia e emoção
Realizado por Tiago P. de Carvalho e com imagens de Rodrigo Caetano, Australian Dream não é um documentário convencional. É uma viagem sensorial, vibrante e crua, que mergulha no turbilhão emocional vivido pelos seis surfistas portugueses — Guilherme Ribeiro, Mafalda Lopes, Tiago Guerra, Martim Paulino, Miguel Matos e Miguel Gomes.
“Foi uma grande responsabilidade”, admite o realizador. “Era o sonho do Miguel, da equipa, de toda a comunidade. Eles deram tudo para chegar ao quinto lugar do mundo — e eu senti que tinha de estar à altura. Estava previsto demorar três meses a fazer o filme, mas levei um ano. Quis dar-lhes o mesmo nível de excelência que eles deram ao surf.”
Com uma estética marcada por cores intensas, ritmo frenético e uma câmara que não se limita a observar, mas participa, o filme constrói um retrato íntimo e visceral. O surf é o fio condutor, mas o que se revela é muito mais: a identidade de um território, a força de uma geração, a beleza de um desporto que é também linguagem, pertença e resistência.
Representar mais do que um clube
Ao longo da narrativa, torna-se claro que os protagonistas não carregam apenas o nome da ASCC. Carregam a Costa de Caparica, com as suas ondas e contradições, com a sua energia criativa e os seus desafios sociais. Representam uma juventude que encontra no mar um espaço de liberdade, disciplina e transformação.
“Representámos a Caparica, Portugal e a Europa”, sublinha Miguel Gomes. “O Guilherme Ribeiro é bicampeão nacional e está na luta por uma vaga no circuito Challenger. A Mafalda Lopes é uma das melhores surfistas portuguesas. O Tiago Guerra tem ainda muito caminho pela frente, mas está focado. O Martim Paulino já foi campeão nacional e conhece bem as ondas australianas. E o Miguel Matos, que agora é o nosso treinador principal, assumiu o legado deixado pelo Pedro Carvalho, que foi fundamental no renascimento da ASCC.”
Tiago P. de Carvalho recorda a receção calorosa da comunidade australiana: “Eles não estão habituados à nossa paixão latina. Cada vez que a equipa portuguesa entrava na água, havia uma energia contagiante na praia. Os australianos ficaram rendidos. Até nos cederam imagens do livestream deles para o filme.”
Uma estreia com impacto social
A antestreia de Australian Dream – A História da ASCC foi também um momento de celebração comunitária. O valor dos bilhetes reverteu integralmente para o Projeto Surf do Bairro, uma iniciativa da ASCC que promove o acesso ao surf a crianças e jovens da Costa de Caparica, independentemente do seu contexto socioeconómico.
O projeto garante equipamento, acompanhamento técnico e atividades educativas, promovendo valores como respeito, compromisso e integração. No momento do checkout, foi ainda possível efetuar um donativo adicional — um gesto simples que ajuda a transformar vidas.
O início de uma nova maré
Este é apenas o primeiro capítulo de uma história maior. A ASCC prepara-se para regressar à Austrália e competir novamente com os melhores clubes do mundo. “Vamos arrancar já na próxima terça-feira. Da primeira vez ficámos em quinto. Agora, quem sabe? Vamos com tudo”, diz Miguel Gomes.
Tiago P. de Carvalho, por sua vez, já retomou o projeto que interrompeu para filmar Australian Dream: um documentário sobre a história do surf em Portugal. “Talvez este seja o melhor filme que já fiz. Pela primeira vez, sinto que qualquer pessoa, de qualquer idade, género ou origem, vai adorar. Aposto cinquenta euros nisso.”
Australian Dream não é apenas um filme sobre surf, é sobre acreditar, pertencer e sonhar alto. É a prova de que o surf da Costa da Caparica tem voz, identidade e lugar no topo do mundo.
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