
«Cheia de Manias», «É Tarde Demais» e «Cigana» pertencem a uma fase em que o pagode romântico deixou de estar circunscrito aos seus públicos habituais e passou a ocupar as rádios brasileiras. Os Raça Negra estiveram entre os protagonistas dessa mudança. Quatro décadas depois da formação do grupo, as canções continuam a fazer parte dos concertos de uma banda que tem uma nova atuação marcada em Portugal, no Casino Estoril.
A história começou em 1983, em São Paulo, longe da dimensão que o projeto viria a alcançar. Durante os primeiros anos, os músicos construíram o repertório em atuações locais. O salto discográfico só aconteceu em 1991, com a edição do primeiro álbum e a popularidade de «Caroline», tema que abriu caminho a uma sequência de êxitos. Para os Raça Negra, foi o início de uma projeção que alteraria a escala das atuações e a relação com a indústria discográfica.
Raça Negra e a afirmação do pagode romântico
Na década de 1990, o pagode ganhou uma visibilidade que ultrapassou os espaços tradicionalmente associados ao samba. As melodias românticas, os refrões facilmente reconhecíveis e a presença crescente na rádio e na televisão aproximaram o género de novos ouvintes. Os Raça Negra participaram nessa transformação, num período em que o mercado musical brasileiro encontrava nas bandas de pagode alguns dos seus maiores fenómenos de vendas.
À frente da formação está Luiz Carlos, vocalista cuja interpretação se tornou uma das marcas do grupo. A sua voz acompanha histórias de paixão, desentendimento e reconciliação que ajudaram a definir o repertório. A linguagem direta das letras tornou essas histórias acessíveis, mesmo a quem não seguia de perto o percurso da banda. «Ciúme de Você», «Pensando em Você», «Me Leva Junto com Você» e «Jeito de Ser» juntaram-se a temas anteriores, consolidando uma identidade musical que o público reconhece desde os primeiros acordes.
O êxito dos Raça Negra também se explica pela circulação destas músicas fora dos discos e dos concertos. Muitas passaram a fazer parte de festas, encontros familiares e programas de rádio, continuando a ser ouvidas mesmo quando as tendências musicais mudaram. Essa permanência deu ao grupo um público que não ficou limitado à geração que acompanhou o seu aparecimento.
Do sucesso no Brasil ao palco do Estoril
É esse repertório que os Raça Negra levam ao Salão Preto e Prata do Casino Estoril, no dia 9 de dezembro, às 22h00. O concerto reúne alguns dos títulos que marcaram a carreira da banda, incluindo «Cheia de Manias» e «É Tarde Demais», e recupera uma parte importante da história do pagode romântico brasileiro.
Entre os episódios mais conhecidos desse percurso figura precisamente «É Tarde Demais». Lançada em 1995, a canção ficou associada a um registo do Guinness World Records: segundo a informação divulgada sobre a distinção, terá sido transmitida 600 vezes nas rádios num único dia, a 20 de julho daquele ano.
O número ajuda a perceber a intensidade da presença dos Raça Negra nos meios de comunicação durante o auge da sua popularidade. Foi uma época em que a repetição radiofónica podia transformar uma canção num fenómeno nacional e em que a televisão ampliava a notoriedade dos artistas para lá das salas de espetáculo.
A carreira prosseguiu com atuações fora do Brasil, incluindo em países da América do Sul e na Europa. Em Portugal, os Raça Negra encontram um público familiarizado com a música brasileira, mas também ouvintes que descobriram estas canções muitos anos depois de terem sido editadas.
No Casino Estoril, a banda regressa a um repertório ligado à expansão do pagode nos anos 90. A apresentação junta o percurso de Luiz Carlos e dos restantes músicos a temas que continuam presentes nas atuações do grupo, mais de quatro décadas após os primeiros passos em São Paulo.






















