
Um automóvel capaz de circular sem condutor não basta para criar um serviço de transporte. É preciso saber onde faz falta, como se articula com as deslocações existentes e o que leva alguém a confiar-lhe uma viagem. São estas algumas das questões que a Nissan quer estudar em Cambridge, no Reino Unido, através de um projeto que junta testes em vias públicas à participação de residentes e utilizadores dos transportes.
Chamado ADventure, o programa dispõe de três milhões de libras, cerca de 3,5 milhões de euros, e conta com apoio do Governo britânico. Liderado pelo Centro Técnico da Nissan na Europa, pretende investigar como um serviço de mobilidade autónoma pode funcionar em ambiente real e que condições são necessárias para o adaptar a diferentes comunidades.
Nissan escolhe Cambridge para investigar a mobilidade urbana
Cambridge será a primeira cidade a acolher testes em condições reais no âmbito do ADventure. A escolha está ligada à experiência local em investigação sobre veículos autónomos e à possibilidade de trabalhar com entidades responsáveis pela mobilidade urbana. O propósito é desenvolver conhecimento que possa ser aplicado, mais tarde, noutras localidades britânicas, com necessidades e redes de transportes distintas.
A investigação assenta em três áreas: conceção de serviços ajustados às cidades, confiança dos passageiros e avaliação da segurança e eficácia da tecnologia nas vias públicas. Nenhuma funciona isoladamente. Um sistema tecnicamente capaz de realizar um percurso terá também de responder a uma necessidade concreta e ser compreensível para quem o utiliza.
Por isso, a Nissan contará com autoridades locais, residentes e utilizadores dos transportes públicos para identificar dificuldades de mobilidade e perceber como um serviço autónomo poderia complementar as opções disponíveis. Transportar até uma consulta médica alguém que não conduz é uma das situações possíveis apontadas no projeto, não uma operação já definida.
David Moss, vice-presidente sénior de Investigação e Desenvolvimento da Nissan para África, Médio Oriente, Índia, Europa e Oceânia, explica o alcance territorial da iniciativa: «Com o apoio do Governo britânico, levará a investigação sobre veículos autónomos para além do centro de Londres, estendendo-a a outra cidade, o que nos ajudará a compreender como estes serviços podem funcionar para diferentes comunidades e em percursos da vida real.»
Nissan LEAF será utilizado nos testes em condições reais
O trabalho técnico terá como base um Nissan LEAF de 2022, equipado com tecnologia de condução autónoma desenvolvida pela marca e já utilizado em programas de investigação anteriores. O veículo servirá para estudar o comportamento dos sistemas em circulação e recolher informação relevante para a conceção de um eventual serviço de transporte de passageiros.
Mas a investigação não termina no desempenho do automóvel. Há questões práticas que os próprios utilizadores ajudarão a esclarecer: que informação precisam de receber, como se sentem perante uma viagem sem condutor e que condições facilitam o acesso ao serviço. A confiança, neste contexto, não é tratada como consequência automática do avanço tecnológico.
O professor Siddartha Khastgir, responsável pela área de Condução Autónoma Segura no Warwick Manufacturing Group (WMG), da Universidade de Warwick, sublinha essa participação: «Ao aplicar os nossos profundos conhecimentos em matéria de segurança e experiência do utilizador ao projeto ADventure, poderemos co-criar, em conjunto com o público, um serviço de mobilidade seguro, de forma a satisfazer tanto as suas necessidades como as prioridades da cidade em matéria de transportes.»
A Nissan desenvolve o ADventure com o WMG e a PAVE UK, organização dedicada à educação sobre veículos automatizados. A iniciativa aproveita também os conhecimentos reunidos em projetos anteriores, como HumanDrive, ServCity e evolvAD, dedicados à condução autónoma em diferentes situações.
O projeto deverá culminar numa demonstração nas ruas de Cambridge. O resultado procurado vai além de mostrar um carro a circular sozinho: é compreender como a tecnologia, a segurança e as expectativas dos passageiros podem convergir num serviço útil para a vida quotidiana e adaptável a outras comunidades do Reino Unido.



















