
O The Kitchen, restaurante do EVOLUTION Cascais‑Estoril, entra numa nova fase com a chegada de Renato Bonfim, um chef que traz consigo uma carta que respira contemporaneidade, precisão e uma ousadia tranquila, daquelas que só quem domina a técnica consegue exercer.
Mas antes de chegar ao prato, há algo que se sente logo à entrada: um ambiente intimista, acolhedor, quase cúmplice, onde a luz baixa, a madeira quente e a arquitetura fluida criam uma atmosfera que convida a abrandar. O The Kitchen não é um restaurante para passar — é um restaurante para ficar. E isso percebe‑se também no serviço: competente, atento, naturalmente simpático, daqueles que sabem estar presentes sem invadir, que leem o ritmo da mesa e ajustam o tom com elegância.
Renato Bonfim encaixa neste cenário com a mesma naturalidade com que constrói os seus pratos. A meio de um curso de Engenharia Informática, trocou o computador pela cozinha — um gesto instintivo que viria a definir um percurso marcado pela técnica, pela curiosidade e por uma visão internacional da gastronomia. Da Suíça a Itália, aprendeu a disciplina e o respeito absoluto pelo produto. De volta a Portugal, passou pelo The Oitavos e pelo Bastardo, onde assumiu a chefia e começou a moldar uma linguagem própria: criativa, rigorosa e profundamente ligada à matéria‑prima.
A viagem continuou pela Califórnia, no Adega — restaurante português distinguido com estrela Michelin — onde aprofundou uma abordagem contemporânea sem perder o fio às raízes. Mais tarde, liderou o grupo Silent Living e o Ceia, consolidando uma visão que agora traz para Cascais: cozinhar como forma de interpretar o mundo, a natureza e o território.”A criatividade pode ser uma forma de respeitar o produto e o solo”, afirma. E essa frase funciona quase como um manifesto para a nova carta.
A carta assume a carne como centro, mas não se limita ao óbvio. As entradas são um prólogo cheio de intenção: o tártaro de lombo, preciso e elegante; o tútano assado, que chega à mesa com aquela untuosidade que pede tempo; as ostras da Neptunpearls, que trazem o Atlântico para dentro da sala; e os “ovos ricos”, talvez o prato que melhor traduz a identidade do chef — carabineiro, presunto e trufa envolvidos numa maionese de presunto que é puro conforto sofisticado.
Há também espaço para o vegetal, tratado com a mesma reverência: o topinambur grelhado com molho de levedura de cerveja é um exemplo claro de como Renato gosta de desafiar expectativas sem perder coerência.
Quando chegam as carnes, percebe‑se que a carta foi pensada para quem aprecia o ritual. O porterhouse maturado e o chuletón maturado são apresentados com a confiança de quem sabe que o produto fala por si. Aqui, a técnica existe para amplificar sabor, não para o esconder.
A carta de vinhos foi desenhada para acompanhar esta viagem — diversa, criteriosa, com propostas que vão do clássico ao inesperado. A par, uma coleção de cocktails signature pensada para marcar diferentes momentos da refeição, sem roubar protagonismo ao prato.
As sobremesas fecham a experiência com notas de tradição e conforto: o abade de priscos com sorbet de framboesa e o créme brûlée de baunilha chegam à mesa com a mesma elegância que define o resto da carta.
No fim, o que Renato Bonfim traz ao The Kitchen é mais do que técnica ou criatividade: é uma visão. Uma forma de cozinhar que respeita o produto, mas também o tempo, o lugar e quem se senta à mesa. Uma cozinha que não grita, mas que se impõe pela subtileza. E que transforma esta steakhouse contemporânea num daqueles sítios onde apetece voltar — não por hábito, mas por desejo.





















