
A pressão da inflação e o aumento contínuo dos preços dos alimentos estão a alterar a forma como os portugueses vivem encontros românticos, jantares fora e momentos partilhados à mesa. A relação entre hábitos alimentares e inflação tornou-se evidente: o que antes era um gesto espontâneo é agora, muitas vezes, uma decisão ponderada.
Dados recentes da Too Good To Go revelam que 53%* dos portugueses admitem ter alterado os seus comportamentos alimentares em momentos partilhados devido ao contexto económico atual. Entre estes, 43% ajustou parcialmente planos como jantares em restaurantes, encontros ou refeições em grupo. A ligação entre hábitos alimentares, aumento de preços de alimentos e inflação reflete-se tanto nas escolhas feitas no menu como na frequência com que se sai para comer fora.
O impacto é particularmente visível fora de casa e nas gerações mais jovens. Entre os 25 e os 34 anos, seis em cada dez inquiridos afirmam ter mudado comportamentos alimentares em encontros ou refeições partilhadas. Já entre os 55 e os 65 anos, essa percentagem desce para 47%. No total, 44% dos portugueses passou a frequentar menos restaurantes e mais de 20% admite estar agora mais atento a promoções e descontos, mesmo em contextos sociais ou românticos.
A tensão entre controlo financeiro e expectativas sociais torna-se clara nos encontros. Cerca de 32% dos portugueses confessam já ter pedido mais comida do que necessitavam para causar boa impressão, enquanto 40% garantem nunca o ter feito. Ao mesmo tempo, deixar comida no prato é visto como sinal negativo por sete em cada dez inquiridos.
Apesar disso, levar sobras para casa continua a gerar desconforto. Um terço dos participantes evita fazê-lo por receio da perceção da outra pessoa, sendo esta hesitação mais comum entre adultos dos 35 aos 65 anos.
Neste cenário, cozinhar em casa ganha relevância. Para 32% dos portugueses, preparar uma refeição para alguém é o gesto alimentar que melhor simboliza afeto. Cerca de metade afirma sentir-se valorizada quando alguém se lembra da sua comida preferida. A equação entre hábitos alimentares e inflação está, assim, a redefinir prioridades: o foco desloca-se do valor gasto para a intenção do gesto.
Os orçamentos acompanham esta tendência. Para uma refeição especial com alguém próximo, o valor mais referido situa-se entre os 30 e os 50 euros por pessoa. Já em primeiros encontros ou refeições com amigos e familiares, o intervalo mais comum desce para os 15–30 euros.
Quando questionados sobre o destino da poupança obtida através de escolhas alimentares mais conscientes, 45% dos portugueses prefere guardar dinheiro para experiências como viagens ou concertos. Um quarto investe em cozinhar melhor em casa e, entre os mais jovens, 57% direciona essa poupança para experiências partilhadas fora da rotina.
Num país onde a mesa continua a ser espaço de convivência e ligação, a forma como se consome revela uma adaptação pragmática ao contexto económico. A consciência financeira cresce, o desperdício é cada vez menos tolerado e os gestos à mesa tornam-se mais intencionais.
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*Inquérito realizado pela Appinio, em janeiro de 2026, para a Too Good To Go, junto de uma amostra nacional representativa de 1000 pessoas com mais de 18 anos em Portugal.





















