
Durante décadas, a hotelaria foi um palco onde as mulheres sempre estiveram presentes — mas nem sempre no centro da narrativa. Hoje, esse cenário mudou. De norte a sul, da Madeira ao Alentejo, são cada vez mais as mulheres que ocupam posições de liderança e que, com estilos distintos, mas uma mesma sensibilidade, estão a redefinir o que significa servir, acolher e gerir no turismo português.
Não se trata apenas de ocupar cargos. Trata‑se de mudar a forma como se lidera.
A liderança que coloca as pessoas no centro
Se há um traço comum entre estas profissionais, é a convicção de que a excelência começa nas equipas. A ideia surge repetidamente entre elas: “A excelência começa nas pessoas — e eu gosto de fazer parte deste processo”, afirma Petra Sauer, diretora‑geral da Fortaleza do Guincho, num testemunho que sintetiza o espírito coletivo que atravessa estas histórias.
Também Cátia Afonso, da Casa Velha do Palheiro, reforça essa visão humana da gestão: liderar é “colocar o coração na operação, a proximidade na exigência e a paixão na superação diária”. E esta mesma atenção às pessoas ecoa em diretoras como Christelle Penven, no Valverde Hotel & Garden, ou Diana Lacerda, no Valverde Santar Hotel & Spa, que sublinham a importância da proximidade, da consistência e da valorização das equipas.
O novo luxo é silencioso, intencional e profundamente humano
Outro eixo que atravessa estas vozes é a redefinição do luxo. Longe da ostentação, perto da autenticidade. Sofia Gouveia, do Praia do Canal Nature Retreat, resume-o de forma cristalina: “o verdadeiro luxo não se impõe, sente‑se”. A frase ecoa numa tendência global — mas ganha em Portugal uma expressão muito própria, ligada ao território, ao ritmo e à identidade de cada lugar.
No Alentejo, no Douro, em Melides ou em Santar, estas líderes falam de detalhes que revelam intenção, de experiências que respeitam o lugar, de uma hospitalidade que se constrói com silêncio, tempo e verdade. É o quiet luxury traduzido para a paisagem portuguesa — visível tanto no L’AND Vineyards, dirigido por Luísa Gomes, como no The Yeatman, sob a liderança de Mónica Gonçalves.
Percursos que inspiram: da operação à direção
Entre estas trajetórias tão distintas, sobressai uma certeza: não existe um único caminho para chegar à liderança. Há quem tenha começado na receção, como Christelle Penven, hoje diretora‑geral do Valverde Hotel & Garden; quem tenha passado por várias geografias e funções; quem tenha vindo de outras áreas e descoberto na hotelaria a sua vocação.
Outras, como Carolina Germano, no Village by BOA, ou Rita Soares, na Herdade da Malhadinha Nova, trazem percursos marcados pela versatilidade, pelo empreendedorismo e pela capacidade de transformar projetos em destinos de referência. Esta diversidade de trajetórias é, por si só, um manifesto: a hotelaria é um setor onde a mobilidade, a aprendizagem contínua e a resiliência são tão importantes quanto a formação académica.
A consciência de género como motor de mudança
Embora o foco destas mulheres não seja a reivindicação, há uma consciência clara de que a presença feminina na liderança na hotelaria, ainda é um tema em evolução. Tânia Guedes, diretora do Torel Royal Court, está mesmo a desenvolver uma tese sobre “Liderança e desigualdade de género na hotelaria em Portugal”. Este dado mostra que, apesar dos avanços, há ainda espaço para reflexão, estudo e transformação.
Mas o tom dominante não é o da queixa — é o da afirmação. Como diz Vera Gonçalves, do Vermelho Melides, “o lugar da mulher é onde ela quiser”. Uma frase simples, mas que resume a maturidade do momento que o setor vive.
Um futuro mais atento, mais humano, mais nosso
O que estas líderes têm em comum não é apenas o cargo. É a forma como olham para o futuro: com propósito, com rigor, com criatividade e com uma profunda consciência do impacto que a hotelaria tem nas pessoas e nos lugares.
Patrícia Correia, do Palácio de Tavira, sublinha o que poderia ser o epílogo deste movimento: “O que é feito com Amor vive para sempre nos corações e memórias de quem toca.” E talvez seja exatamente isso que distingue esta nova geração de mulheres à frente da hotelaria portuguesa — a capacidade de transformar o que é operacional em experiências, equipas em comunidades e hotéis em lugares onde a memória preserva os pequenos momentos de felicidade.





















