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De Gaulle – Resistência leva ao cinema o homem que se recusou a aceitar a derrota

De Gaulle - Resistência acompanha a recusa do general em aceitar a derrota e leva ao cinema uma história de coragem, poder e convicção.

Cena de De Gaulle Resistência os perrsonagens junto a um mapa da Europa
Imagem de De Gaulle – Resistência, filme de Antonin Baudry que revisita a França de 1940 e o início da resistência à derrota - ®DR

Em junho de 1940, França capitula, o armistício é assinado e Charles de Gaulle recusa aceitar que a guerra terminou para o seu país. É nesse instante de rutura que começa De Gaulle – Resistência, o filme de Antonin Baudry que chega aos cinemas portugueses a 8 de outubro, com Simon Abkarian no papel do general francês.

Sem exército, sem uma estrutura de poder que o sustente e praticamente sem margem de manobra, De Gaulle parte para Londres convencido de que França ainda pode continuar a combater. A missão passa por conquistar a confiança de Winston Churchill e afirmar, perante os Aliados, uma legitimidade que naquele momento estava longe de ser reconhecida.

De Gaulle – Resistência procura o homem antes do símbolo

Antonin Baudry não esconde que é precisamente esse período, entre 1940 e 1945, que o fascina. “Era preciso ser um pouco peculiar, um pouco louco, para estar sentado no gabinete de Churchill no dia seguinte à capitulação de França”, afirma o realizador, que resume essa atitude através da expressão “imaginação no poder”.

É por aí que De Gaulle – Resistência procura afastar-se da representação solene de uma figura histórica já transformada em símbolo. Baudry interessa-se pelo homem que insiste quando a realidade parece contrariá-lo, mas também pelos momentos de dúvida, pelos espaços privados e pela tensão entre a dimensão dos acontecimentos e a fragilidade individual.

O cineasta aproxima mesmo De Gaulle de Dom Quixote, numa personagem onde encontra elementos épicos, trágicos e cómicos. Não procura, contudo, explicar psicologicamente cada gesto. “O cinema permite chegar aos bastidores de uma personagem histórica, entrar na sua pele, no seu corpo, no seu apartamento privado”, explica.

Churchill, aliados e uma relação de forças desigual

A relação com Winston Churchill ocupa um lugar central em De Gaulle – Resistência. Baudry descreve-a como uma relação de “amor e ódio”, marcada simultaneamente por admiração, confronto e interesses divergentes. Simon Russell Beale interpreta o primeiro-ministro britânico, num elenco que inclui também Mathieu Kassovitz, Benoît Magimel, Anamaria Vartolomei, Niels Schneider e Karim Leklou.

Essa dimensão geopolítica dá ao filme uma escala que ultrapassa a biografia. De Gaulle aparece frequentemente como o homem mais fraco numa mesa de negociações dominada por britânicos, americanos e outros poderes, obrigado a transformar convicção e linguagem em instrumentos políticos.

Simon Abkarian recusa fazer uma simples imitação

Para Simon Abkarian, interpretar alguém cuja imagem está profundamente fixada na memória coletiva implicava encontrar distância suficiente para evitar a caricatura. O ator estudou imagens de arquivo, a postura, a voz e a forma particular como De Gaulle utilizava as palavras.

“De Gaulle no grande ecrã não é real. O que é real é uma representação de De Gaulle”, afirma Abkarian. “O meu trabalho é imaginar De Gaulle a partir da sua imagem pública, do seu físico estranho, da sua voz e da sua maneira ainda mais estranha de se exprimir.”

Em De Gaulle – Resistência, essa construção apoia-se na precisão. Abkarian explica que um movimento, uma respiração ou uma postura podem alterar completamente a leitura de uma cena, sobretudo quando se representa uma figura histórica imediatamente reconhecível.

Uma resistência que não pertence apenas a De Gaulle

Baudry alarga a narrativa aos que decidiram resistir longe dos grandes centros de decisão. Entre eles estão jovens estudantes, soldados e combatentes que começam a organizar-se quando a derrota parecia definitiva. O realizador recorda a manifestação estudantil de 11 de novembro de 1940, em Paris, que reuniu cerca de três mil jovens junto ao Arco do Triunfo.

É essa dimensão coletiva que impede De Gaulle – Resistência de ficar fechado na biografia de um único homem. A recusa inicial ganha força à medida que outros fazem escolhas semelhantes, muitas vezes sem saber qual poderia ser o resultado.

Com 160 minutos, De Gaulle – Resistência é apresentado como um thriller geopolítico. O argumento é assinado por Antonin Baudry e Bérénice Vila e parte do livro De Gaulle: A Certain Idea of France, do historiador Julian Jackson.

No centro permanece uma questão que atravessa todo o filme De Gaulle – Resistência: o que leva alguém a continuar quando os factos, os aliados e a própria História parecem dizer que já é tarde demais?

aNOTÍCIA.pt