
O primeiro automóvel em Portugal foi um Panhard & Levassor que confundiu a alfândega e demorou três dias a chegar ao Alentejo. A história regressa agora num livro de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, com ilustrações de Pedro Brito. “Que grande novidade! O primeiro automóvel em Portugal” recupera a chegada de uma máquina que, em 1895, despertou curiosidade e receio, muito antes de os carros fazerem parte da paisagem quotidiana.
A obra nasceu de um convite do Município de Santiago do Cacém às escritoras para contarem este episódio ao público mais jovem. Passados 131 anos, o relato aproxima os leitores de uma época em que um veículo capaz de avançar sem cavalos era uma novidade difícil de compreender.
O primeiro automóvel em Portugal chegou de Paris
Importado de Paris por D. Jorge d’Avillez, um jovem aristocrata de Santiago do Cacém, o Panhard & Levassor desembarcou em Lisboa em outubro de 1895. Antes de seguir viagem, porém, havia uma questão por resolver: que taxa aduaneira se aplicava àquele veículo?
Na alfândega, discutiu-se se deveria ser considerado uma máquina agrícola ou um locomóvel, categoria associada a máquinas movidas a vapor. Acabou classificado como locomóvel, apesar de ter um motor de combustão. A chegada do primeiro automóvel em Portugal esbarrava, assim, em regras que ainda não previam uma invenção daquela natureza.
A montagem foi feita numa oficina de carruagens, onde se trabalhava com veículos puxados por cavalos. Era ali que se preparava agora um carro capaz de circular com um motor.
Com destino à casa de D. Jorge d’Avillez, em Santiago do Cacém, a viagem demorou três dias — um percurso que hoje se faz em poucas horas.
Três viajantes e um acidente em Palmela
Além do proprietário, participaram na viagem Jules Phillipe, engenheiro na região, e Hidalgo Vilhena, santiaguense ligado aos primeiros tempos da fotografia. Os três acompanharam um percurso que ficaria marcado por um acidente à entrada de Palmela.
Um burro encontrava-se na estrada e o embate provocou a morte do animal. O proprietário recebeu uma indemnização de dezoito mil réis, valor apresentado nos relatos históricos como equivalente ao triplo do que custava um burro naquela época.
O episódio tornou-se uma das passagens mais conhecidas da história do primeiro automóvel em Portugal. Mostra também como a novidade mecânica teve de partilhar caminho com os animais que continuavam a assegurar as deslocações e o transporte de mercadorias.
Quando o Panhard & Levassor chegou a Santiago do Cacém, a reação dos habitantes juntou espanto, entusiasmo e algum receio. A máquina acabaria por receber uma alcunha que dispensava explicações técnicas: “O Gasolinas”.
Da estrada às páginas de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
É esta sucessão de acontecimentos que dá matéria ao livro de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. O primeiro automóvel em Portugal permite contar uma mudança através de pessoas, lugares e dificuldades concretas, aproximando a história dos leitores sem a reduzir a uma data.
A ligação ao concelho é também uma forma de enquadrar o acontecimento: o destino do carro era a casa do seu proprietário, numa vila que passaria a ficar associada à história da mobilidade no país.
A edição especial será oferecida aos alunos do 2.º ciclo dos quatro agrupamentos de escolas do concelho: Cercal do Alentejo, Santiago do Cacém, Santo André e Professor Arménio Lança, em Alvalade.
O primeiro automóvel em Portugal encontra-se em exposição no Museu Nacional dos Coches, em Lisboa. Propriedade do Automóvel Club de Portugal, que assegurou o seu restauro, o Panhard & Levassor preserva a memória daquela viagem. www.cm-santiagocacem.pt
A apresentação de “Que grande novidade! O primeiro automóvel em Portugal” está marcada para 26 de outubro, às 11h00, na Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca, em Santiago do Cacém, a localidade onde terminou o percurso que o livro agora recupera.





















