
A História de Portugal também se conta com frangos nos bolsos, disputas familiares e deputados que trocam argumentos por pistolas. Estes são alguns dos episódios reunidos pelo jornalista Manuel Catarino em “A Mais Divertida História de Portugal”, uma obra que percorre o passado dos primeiros invasores ao fim da Primeira República. O interesse recai sobre os comportamentos, as rivalidades e as excentricidades de quem participou nos acontecimentos, com atenção ao que costuma ficar de fora das sínteses escolares.
Reinados, conspirações, guerras e revoluções fornecem o contexto. Pelo meio, surgem governantes cujos hábitos dificilmente caberiam num retrato oficial e decisões em que a ambição pessoal se confunde com os assuntos do reino. O autor aproxima-se destas figuras com o olhar de um repórter, interessado tanto no que fizeram como nas circunstâncias em que o fizeram.
História de Portugal com pouco protocolo à mesa
D. João VI é uma das personagens destacadas na apresentação do livro. Segundo a sinopse, o rei transportava pedaços de frango assado nos bolsos, prontos a satisfazer o apetite onde quer que estivesse, e passava dias sem mudar de calças. A etiqueta da corte teria, nestas ocasiões, alguma dificuldade em acompanhar o soberano.
Outro relato acompanha a fuga da corte para o Brasil. A sinopse descreve um surto de piolhos que levou membros da nobreza a raparem a cabeça. O aspeto acabaria por ser imitado na colónia, onde foi interpretado como uma novidade chegada da Europa. Na versão contada, a necessidade de uns tornou-se o modelo de elegância de outros.
Há ainda o caso de um rei cuja impotência sexual terá levado prostitutas a testemunhar perante um tribunal eclesiástico. São episódios apresentados pela obra que deslocam a atenção das cerimónias para a intimidade e expõem o contraste entre a posição social e a vida privada. Ideias de Ler
Nesta História de Portugal, o humor nasce frequentemente dessa distância: o título impunha respeito, mas o comportamento nem sempre ajudava.
História de Portugal entre intrigas e tiros
O percurso também passa pelas relações familiares e pelas disputas de influência. O material de apresentação destaca a intervenção do infante D. Henrique no conflito que envolveu o irmão D. Pedro e o sobrinho rei, assim como as relações de D. João V com freiras. A leitura proposta pelo autor dá espaço aos interesses e aos desejos que atravessavam a corte.
Já na Primeira República, a sinopse recupera um duelo à pistola entre dois deputados. A divergência política saía, assim, do terreno da discussão para um confronto com consequências potencialmente bem diferentes das de um discurso inflamado.
Contar a História de Portugal a partir destas situações permite aproximar figuras separadas por séculos e regimes. Mudam os cargos, as instituições e as regras; persistem as rivalidades, a vaidade e a dificuldade em aceitar oposição. É nesse comportamento humano que assenta parte do registo escolhido por Catarino.
“Quis devolver voz e temperamento a personagens reduzidas a nomes e datas e mostrar que o passado pode ser muito mais divertido do que nos fizeram acreditar”, afirma o jornalista.
Em “A Mais Divertida História de Portugal”, essa intenção traduz-se numa narrativa apresentada como próxima da reportagem, com linguagem acessível e sarcasmo. O compromisso com o rigor histórico é assumido pelo autor e pela editora; o humor constitui a forma escolhida para contar os episódios.
História de Portugal pelo olhar de um jornalista
Nascido em Alvor, em 1960, e criado em Ferragudo, Manuel Catarino trabalhou em redações como Tal&Qual, 24Horas, Focus, Correio da Manhã e Diário de Notícias. Integra atualmente a plataforma digital de informação 24Horas.
O seu percurso como escritor inclui investigação histórica, biografia e crime, com títulos como “Spínola: Senhor da Guerra”, “Amália: Episódios, Segredos e Excentricidades” e “Os Crimes que Chocaram Portugal”.
Publicado pela Ideias de Ler, o novo livro tem 344 páginas e chegou às livrarias a 29 de outubro e foi apresentado a 3 de novembro, na Bertrand Chiado, numa conversa com Francisco Seixas da Costa.
A História de Portugal mantém as guerras, os reinados e as revoluções. Nesta abordagem, fica também espaço para o pormenor pouco cerimonioso: um rei podia governar um país e levar o almoço no bolso.





















