
O cheiro a berbigão acabado de abrir mistura-se com o som dos comboios que chegam e partem de Santa Apolónia. É nesse cruzamento de memórias e movimento que se encontra a Taberna Albricoque, um espaço onde tradição e contemporaneidade se dão as mãos. O nome, de origem árabe, significa alperce e sobrevive apenas no Algarve, região que moldou a identidade gastronómica do chef Bertílio Gomes. “Queria um espaço verdadeiro, com história, onde pudesse fazer uma cozinha democrática, sem pretensões”, afirma.
Na sala do fundo, escavada na rocha, um painel de azulejos retrata a estação de Santa Apolónia, testemunho da ligação ferroviária de Lisboa à Europa. É neste cenário carregado de autenticidade que Bertílio serve pratos que são tanto memória como manifesto.
Raízes e percurso profissional
Nascido na zona da grande Lisboa, mas com raízes familiares em Albufeira e Loulé, Bertílio cresceu entre o pulsar urbano e o sul algarvio. As férias de verão passadas a ajudar em restaurantes algarvios despertaram-lhe o gosto pela restauração. Em 1993 iniciou a formação profissional e, dois anos depois, integrou o Hotel da Lapa.
Seguiram-se experiências marcantes: a Bica do Sapato, o Faz Figura e o restaurante Vírgula, espaço de grande projeção que lhe deu reconhecimento nacional. Mais tarde, diversificou projetos: abriu geladarias artesanais em parceria com a mulher, deu aulas na Escola de Hotelaria do Estoril e foi consultor em vários espaços. Em 2012 assumiu a concessão do Xapitô, onde esteve nove anos, até inaugurar a Taberna Albriquoque em 2019.
“Eu gosto de coisas verdadeiras. Não queria um espaço ‘fabricado’. Aqui tudo tem história”, sublinha o chef, que vê a cozinha como extensão da sua própria biografia.
Pratos emblemáticos
Na Taberna Albricoque, cada prato é uma viagem às raízes e ao território. Entre as várias propostas, três destacam-se como verdadeiras assinaturas da casa:
- Rissóis de berbigão: petisco-ícone, feito com berbigão fresco aberto no momento e bechamel preparado com a própria água do marisco, enriquecido com alface-do-mar — um tributo ao litoral e ao sabor tradicional.
- Xerém com lingueirão: combinação de cereais e marisco de costa, exemplo de cozinha de raiz com alma mediterrânica, que traduz a ligação do chef ao Algarve e ao mar.
- Bolo de alfarroba com gelado de queijo de figo: sobremesa que representa a vertente doce e continental da cozinha de Bertílio, combinando ingredientes nacionais com criatividade e memória.
Outros pratos reforçam esta identidade: o tártaro de carapau, a cabidela de cristas de galo, o cabrito estonado na Páscoa, a morcela vegetal de cenoura-roxa algarvia e as lentilhas com queijo de cabra e kale. Cada proposta é pensada como narrativa: sabores que contam histórias de território, de memória e de futuro.
Os jantarinhos
De quarta a sexta-feira ao almoço, a Taberna Albricoque recupera os jantarinhos, uma refeição robusta e saudável que outrora marcava o meio do dia. Preparados com hortícolas, leguminosas e pequenas porções de carne salgada, eram uma refeição completa e nutritiva.
“Era uma refeição completa, que queremos voltar a oferecer. Faz muita falta”, sublinha Bertílio, que vê nos jantarinhos uma forma de devolver ao quotidiano a simplicidade nutritiva de outrora.
O cozido à portuguesa
No próximo domingo, dia 14, a Albricoque abre para um evento especial: um cozido à portuguesa com curadoria de Nuno Diniz, conhecido como o Chef dos cozidos e especialista em enchidos e fumeiro. O prato reunirá enchidos de Montalegre, Batalha, Fundão e Serpa, acompanhados por hortícolas, batata Kennebec e grão-de-bico.
A iniciativa celebra a diversidade gastronómica nacional e reforça a ligação entre tradição e contemporaneidade. É também uma oportunidade para mostrar como a cozinha portuguesa pode ser revisitada com rigor e paixão. Para degustar este cozido é conveniente fazer reserva, para não ficar sem lugar e “com água na boca”.
Sustentabilidade e visão
Carismático e atento ao futuro, Bertílio aposta em produtos locais e práticas responsáveis. “Quero uma cozinha autêntica, acessível a todos, mas também responsável. A sustentabilidade não é moda, é necessidade”, afirma.
Sete meses após abrir o espaço, enfrentou a pandemia, que o obrigou a recorrer à banca. “Foi muito duro. Ainda estou a pagar as contas da pandemia”, confessa. Apesar das dificuldades, manteve o restaurante e a geladaria, reforçando a sua imagem de chef resiliente e inovador.
Na Taberna Albricoque, a cozinha é também compromisso: com o território, com os produtores e com o futuro.
Um espaço com alma
Na Taberna Albricoque, cada detalhe conta: dos móveis de época ao vitral recuperado, da escolha dos ingredientes ao painel de azulejos que guarda a memória da estação. Mais do que um espaço gastronómico, é um lugar com alma, onde cada prato é uma história e cada sabor é uma viagem.
Bertílio Gomes acredita que cozinhar é preservar cultura e reinventar raízes — e é essa convicção que transforma cada refeição numa experiência que fica na memória de quem visita.




















