
O fumeiro de Vinhais veio a Lisboa para se dar a provar — e a sentir — num almoço intimista promovido pela Chef Justa Nobre no Nobre, o seu restaurante no Campo Pequeno. À mesa, entre travessas fumegantes e conversas cheias de memória, falou‑se da 46ª Feira do Fumeiro de Vinhais, que decorre de 5 a 8 de fevereiro, e da força cultural, económica e afetiva deste produto que atravessa gerações.
A iniciativa partiu de um convite do presidente da Câmara Municipal de Vinhais, que desafiou Justa Nobre a criar um almoço capaz de mostrar, a um pequeno grupo de convidados, a autenticidade e a riqueza do fumeiro transmontano. A chef aceitou sem hesitar.
“É um almoço simples, com pratos da época — e nesta altura, o produto da época é o fumeiro”, explicou, enquanto descrevia o menu. Trufas fingidas de salpicão, croquetes de vitela mirandesa e de alheira, linguiça assada, caldo de casulas secas e, como prato principal, cuscos de trigo barbela e castanhas com vitela mirandesa e butelo, um enchido típico do inverno. Na sobremesa, um fondant de abóbora. “Tudo produtos da terra, tudo produtos da época. É um almoço simples, mas acho que muito gostoso.
Para Hirondino Isaías, presidente da Casa de Trás‑os‑Montes e Alto Douro, a valorização do fumeiro é essencial — e tem impacto real na economia local. “Na Feira do Fumeiro chegam a ser vendidos cerca de seis milhões de euros em produtos. É uma verba considerável para aquela gente que aposta neste trabalho e que mantém viva uma tradição que sempre fez parte da nossa subsistência.”
Recorda que, durante décadas, o fumeiro era feito em casa, como forma de garantir alimento até à próxima matança. “Qualquer aldeia, qualquer casa fazia o seu fumeiro. Hoje, a Câmara de Vinhais teve a visão de tornar isto mais profissional. Começaram a surgir fábricas, os restaurantes aderiram, e há pessoas novas a dedicarem‑se a esta arte. O produto é o mesmo — carne de porco — mas o segredo está na mão de quem tempera.” E acrescenta que, de região para região, o sabor muda: “Em Vinhais, o fumeiro é mais intenso, com mais vinho e tempero. Em Bragança, Bouro ou Mirandela é mais suave. Cada família tem o seu toque.”
Luís dos Santos Fernandes, presidente da Câmara Municipal de Vinhais, sublinha que a Feira do Fumeiro é muito mais do que um evento gastronómico: é um motor económico e uma montra de excelência. “A Feira do Fumeiro é sempre um sucesso. Já começam a aparecer muitos profissionais do País Basco a comprar fumeiro para restaurantes — alguns deles bastante conceituados. Até equipas ligadas ao El Bulli já estiveram em Vinhais a procurar produtos, não só fumeiro mas também cuscos, que são muito apreciados.”
Mas o autarca faz questão de lembrar que o encanto de Vinhais não está apenas no prato. “O que vão encontrar é gente magnífica para receber, produtos de excelência — fumeiro, vinho, mel — e uma paisagem de cortar a respiração. Este fim de semana até tivemos neve.” Com humor, acrescenta: “Vinhais não fica longe da Europa — fica mais perto. Temos uma estação de TGV a 15 minutos. Demorámos menos tempo a chegar a Madrid do que a Lisboa.”
A castanha e o fumeiro são os dois pilares económicos do concelho. “A feira serve para divulgar, porque a procura é maior do que a oferta. Este produto chega muito longe.”
Entre memórias de lareiras acesas, invernos rigorosos e famílias reunidas à volta da matança, Justa Nobre resume aquilo que todos ali sentiam: “A gastronomia faz parte da nossa identidade. O fumeiro é feito com tempo, com saber e com alma.”
E foi exatamente isso que o fumeiro de Vinhais trouxe a Lisboa: sabor, história e um pedaço de inverno transmontano servido com orgulho.





















