
Num território onde o campo e o mar sempre dialogaram à mesa, a tradição gastronómica continua a contar histórias de identidade, memória e comunidade. Entre receitas transmitidas ao longo de gerações, produtos moldados pela proximidade da terra e saberes que resistem ao tempo, a Cozinha Saloia permanece como uma das expressões mais autênticas da cultura alimentar portuguesa.
Enraizada na história rural da região que rodeia Lisboa, a Cozinha Saloia revela um património culinário marcado pela sazonalidade, pela proximidade aos produtos da terra e por práticas agrícolas que moldaram a identidade gastronómica local. Ao longo de décadas, estas tradições alimentares foram construindo um legado onde simplicidade, autenticidade e ligação ao território continuam a definir a mesa saloia.
Promovidas pelo Município de Cascais, as II Jornadas Portuguesas de Gastronomia surgem como um espaço privilegiado de encontro entre investigadores, académicos e profissionais do setor, contribuindo para reforçar a visibilidade da gastronomia portuguesa no contexto nacional e internacional. O objetivo passa por afirmar Portugal como destino de turismo gastronómico, promovendo simultaneamente o debate em torno da preservação e valorização do património alimentar.
A edição deste ano realiza-se em parceria com a rede transnacional DIAITA – Património Alimentar da Lusofonia, sediada em Portugal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A iniciativa propõe uma reflexão aprofundada sobre o passado, o presente e o futuro da herança cultural e gastronómica associada ao conceito de “Ser Saloio”, sublinhando o papel da gastronomia enquanto elemento de identidade coletiva e de coesão comunitária.
Neste contexto, a cozinha, profundamente enraizada nas tradições rurais da região, encontra no universo saloio uma expressão singular de autenticidade, onde produtos, técnicas e saberes contribuem para preservar uma memória gastronómica que importa salvaguardar num mundo cada vez mais globalizado.
Num ano particularmente simbólico para o concelho, em que Cascais assume o título de Capital Europeia da Democracia, o evento contará ainda com Cabo Verde como país convidado. A presença cabo-verdiana reforça os laços históricos e culturais entre os dois territórios e apresenta a sua gastronomia como resultado de uma fusão de influências africanas e portuguesas, baseada em produtos como milho, peixe e marisco, espelhando também a multiculturalidade que caracteriza o concelho.
O programa integra momentos de reflexão académica, encontros entre especialistas e experiências gastronómicas que valorizam o património alimentar. Entre os destaques encontram-se comunicações dedicadas às práticas alimentares e à cultura saloia, com intervenções do chef Gil Fernandes, de Virgílio Nogueiro Gomes e de Maria Amélia Cabrita, bem como sessões dedicadas à evolução das práticas alimentares na região ao longo do século XX, às tradições e modos de vida locais e ao património vínico representado pelo vinho de Carcavelos.
A iniciativa inclui igualmente momentos de degustação de produtos regionais, um ateliê temático dedicado à doçaria e aos petiscos tradicionais, mesas-redondas sobre agricultura e sustentabilidade, visitas guiadas, demonstrações gastronómicas e provas comentadas de receitas tradicionais. O programa contempla ainda uma mostra gastronómica no Mercado da Vila e um painel dedicado às cartas gastronómicas enquanto instrumentos de salvaguarda do património alimentar, reunindo projetos e especialistas de diferentes regiões do país.
O encerramento será assinalado com um jantar final inspirado na tradição local, com curadoria do Cascais Food Lab, celebrando os sabores e a identidade da Cozinha Saloia.
As II Jornadas Portuguesas de Gastronomia, subordinadas ao tema “Cozinha Saloia – tradição, território e sustentabilidade”, realizam-se em Cascais nos dias 26 e 27 de março, com atividades distribuídas entre o Centro Cultural de Cascais, o Cascais Food Lab e o Casal Saloio, em São Domingos de Rana. Algumas iniciativas são de acesso livre, enquanto outras estão sujeitas a inscrição e lotação limitada.



















