
As mulheres na ciência distinguidas este ano trabalham sobre questões que ainda não têm resposta simples. O que fazer às células de um tumor cerebral que permanecem depois de uma cirurgia? Como reconhecer o lúpus antes de causar danos graves? E será possível aproveitar a luz de uma sala para alimentar pequenos equipamentos?
Estas perguntas atravessam os projetos de Cláudia Martins, Inês Alves e Fátima Santos. O quarto, desenvolvido por Ana Esteves, procura tornar a produção de microalgas menos dispendiosa em energia. As quatro investigadoras venceram a 22.ª edição das Medalhas de Honra L’Oréal para as Mulheres na Ciência, promovidas pela L’Oréal Portugal e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Cada uma vai receber 15 mil euros para desenvolver a sua investigação. O apoio total, de 60 mil euros, foi atribuído após a seleção das vencedoras entre dezenas de candidaturas.
Mulheres na ciência procuram respostas para duas doenças difíceis de enfrentar
O glioblastoma é um tumor cerebral maligno agressivo. A cirurgia permite remover a parte visível, mas podem ficar células no cérebro capazes de dar origem a novo crescimento. É sobre esse problema que trabalha Cláudia Martins, investigadora do i3S e da Universidade do Porto.
A sua proposta é desenvolver um pequeno implante para colocar no local de onde o tumor foi retirado. O dispositivo deverá libertar quimioterapia de forma gradual e concentrada nessa zona. Ao mesmo tempo, o projeto procura bloquear mecanismos que ajudam as células cancerígenas a resistir ao tratamento e impedir que continuem a multiplicar-se.
A investigação está ainda em desenvolvimento, mas parte de uma necessidade concreta: alcançar células que a intervenção cirúrgica não consegue retirar. Entre as mulheres na ciência premiadas, Cláudia Martins é a que se dedica ao tratamento do cancro; Inês Alves procura compreender sinais que possam ajudar a identificar outra doença mais cedo.
O lúpus ocorre quando o sistema imunitário reage contra tecidos do próprio organismo. Afeta sobretudo mulheres e nem sempre é reconhecido rapidamente. Para Inês Alves, investigadora ligada ao i3S e à Universidade do Porto, uma das pistas pode estar nos açúcares presentes à superfície das células.
O projeto estuda de que forma esses açúcares se alteram nos tecidos afetados e como se relacionam com a resposta do sistema imunitário. A investigadora procura também identificar anticorpos associados a essas mudanças. Se os padrões encontrados se revelarem úteis, poderão abrir caminho a uma deteção mais precoce e ajudar a evitar danos nos órgãos e tecidos.
Mulheres na ciência exploram o potencial das microalgas e da luz interior
Da saúde, as investigações distinguidas passam para duas questões ligadas à energia. Na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), Ana Esteves estuda as microalgas, organismos com possíveis aplicações industriais cuja produção em grande escala ainda apresenta dificuldades.
Não basta fazê-las crescer: é preciso separá-las da água onde são cultivadas, uma etapa que pode consumir energia e exigir a utilização de produtos químicos. Ana Esteves vai testar diferentes espetros de luz e frequências sonoras para perceber se consegue estimular o crescimento das microalgas e favorecer o seu agrupamento natural. Dessa forma, poderá tornar a sua recolha mais simples.
Numa fase posterior, o projeto prevê recorrer a modelos de inteligência artificial para encontrar as condições mais eficientes de produção. O trabalho desta investigadora mostra como as mulheres na ciência podem cruzar áreas aparentemente distantes, neste caso a biotecnologia, a energia e a análise de dados, para resolver um problema específico.
Também na FEUP, Fátima Santos procura aproveitar um recurso familiar: a luz que ilumina casas e escritórios. O seu projeto desenvolve células fotovoltaicas capazes de a captar e transformar em eletricidade, mesmo em espaços interiores.
Essa energia destina-se a sensores e outros dispositivos que precisam de pouca eletricidade para funcionar. A tecnologia poderá vir a ser integrada em superfícies como janelas e reduzir a necessidade de substituir baterias nesses equipamentos. Antes disso, será necessário continuar a testar o seu desempenho em condições de utilização.
O apoio às mulheres na ciência acompanha projetos em desenvolvimento
Os quatro projetos encontram-se em fases de investigação. O prémio atribuído a cada vencedora ajuda a financiar o trabalho necessário para testar as propostas, analisar resultados e perceber até onde podem chegar. Nenhuma das aplicações descritas é apresentada como uma solução já disponível.
O programa procura também dar visibilidade aos obstáculos que persistem na carreira das mulheres na ciência. De acordo com a informação divulgada pela organização, Portugal regista uma presença feminina próxima da paridade entre pessoas doutoradas e no acesso inicial à investigação. Essa situação não se repete com a mesma expressão nos cargos de topo, na liderança de instituições ou no financiamento prolongado de projetos independentes.
Na cerimónia de entrega, as vencedoras falaram sobre os seus percursos e os próximos passos das investigações. O encontro incluiu ainda um debate sobre a passagem do conhecimento científico para aplicações com impacto na sociedade e na economia. O júri científico desta edição foi presidido por Alexandre Quintanilha.
As Medalhas de Honra L’Oréal para as Mulheres na Ciência são atribuídas em Portugal através da parceria entre a L’Oréal Portugal e a FCT, criada em 2004. Desde então, a iniciativa apoiou mais de 70 jovens investigadoras doutoradas. O programa internacional que lhe deu origem nasceu em 1998, numa colaboração entre a L’Oréal e a UNESCO.



















