
O Pastel de nata da Nat’lier afirma-se como uma criação de autor: fiel à tradição, mas com liberdade para surpreender. Com assinatura do chef João Batalha, este projeto lisboeta transforma o ícone da pastelaria portugues a numa viagem de sabores e afetos.
Filho e neto de pasteleiros, o Chef João Batalha cresceu entre fornadas e histórias de balcão na Venda do Pinheiro. Durante anos resistiu à ideia de seguir o negócio familiar, mas acabou por encontrar no pastel de nata o seu caminho de autor. Depois de lançar a Pastelaria Batalha no Largo do Camões e de conquistar reconhecimento internacional com as suas “Pastel de Nata Masterclasses”, João tornou-se uma referência na arte de transformar o mais icónico doce português numa experiência sensorial e afetiva.
Em 2022, deu um novo passo com a abertura da Nat’lier, um espaço criativo no coração da Baixa lisboeta, mesmo em frente ao Elevador de Santa Justa. É aqui que nasce o Pastel de Nata Nat’lier — uma versão artesanal, feita à vista de todos, que respeita a receita tradicional mas ousa experimentar. Mais do que uma pastelaria, a Nat’lier é um laboratório de sabores e memórias, onde o pastel de nata tradicional convive com interpretações inesperadas — de tiramisù a crème brûlée, passando por maçã e canela ou pistácio — e onde o café de assinatura, criado em parceria com a Delta, reforça a identidade da casa.
João fala com entusiasmo e sem pressas. Conta que o blend de café exclusivo, feito com robustas do Uganda e de Angola e arábicas da América Latina, foi pensado para casar com o sabor do Pastel de Nata Nat’lier. “Fizemos várias provas até chegar a este lote. É intenso, mas adocicado. Só está disponível nos nossos espaços, porque queríamos algo que fosse mesmo nosso.” Essa ideia de pertença atravessa todo o projeto — desde a escolha dos ingredientes até à forma como se recebe quem entra pela porta.
A produção é visível, sem segredos. Os clientes podem ver a massa a ser trabalhada, o creme a ser feito no tacho, os pastéis a sair do forno. “Aconselhamos sempre a começar pelo tradicional. Mas depois há espaço para experimentar.” E há muito por onde escolher: tiramisù, crème brûlée, maçã e canela, pistácio, e até uma versão vegana, lançada em 2019, feita com bebida de aveia. “Que eu saiba, somos os únicos a fazer isto com esta consistência e variedade de sabores. Mas o mais importante é que, mesmo com um toque diferente, o sabor do pastel de nata esteja sempre lá.”
A conversa flui para as Masterclasses, que se tornaram um fenómeno. “Comecei com workshops em 2018, e a procura foi tanta que se tornaram uma das experiências mais procuradas da Europa. Já tivemos pessoas de 80 anos, crianças, empresários. Toda a gente mete as mãos na massa — literalmente. Misturam farinha, água e sal, fazem o creme, enchem as formas, levam ao forno. No fim, provam três e levam os que fizeram. É uma experiência afetiva, como um almoço de domingo em família.”
Esse espírito familiar está também na forma como a equipa é gerida. João acredita que o motor da empresa são as pessoas que estão à frente dos espaços. “Desde o início que contratámos alguém só para o recrutamento. Preferimos quem tem vontade de crescer a quem chega com tudo feito. E promovemos sempre quem já está connosco.” O resultado? Uma equipa coesa, motivada, com formação contínua e foco no atendimento. “Queremos que o cliente se sinta bem, que volte porque gostou do produto e do serviço. Não pressionamos ninguém. Vendemos com naturalidade.”
A loja da Rua de Santa Justa recebe sobretudo turistas, mas o feedback dos portugueses tem sido surpreendente. “Achávamos que os mais jovens iam aderir mais aos sabores diferentes, mas temos muitos clientes mais velhos, curiosos, abertos à experiência.” E mesmo com a sazonalidade do turismo, os números não param de crescer. “Entre 2024 e 2025 crescemos 60%. Há quem diga que 2025 foi um ano fraco — nós não sentimos isso. Estamos sempre a crescer.”
O futuro? Está em aberto, mas com rumo. A internacionalização é o próximo passo, ainda em estudo. Franchising, parcerias, lojas próprias — tudo está em cima da mesa. “Temos alguns países em mente, incluindo o Médio Oriente. Mas o ponto de partida será sempre Lisboa. É aqui que tudo começa.”
No fim da conversa, o chef João Batalha volta ao essencial: a família, a mesa, o sabor que fica. “Nem todos gostam de pistácio, ou de maçã. Mas todos temos dias diferentes. Segunda pode ser o pastel tradicional, quarta o de tiramisù, sexta o de maçã e canela. O importante é que, no fim, o sabor do Pastel de Nata Nat’lier esteja sempre lá. É isso que nos liga.”





















